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Dinheiro pode perder importância numa economia de IA e robôs?

IA pode derrubar o custo de inteligência e automação. Mas dinheiro só perde importância de verdade quando a escassez também diminui nos bens que organizam a vida.

Palavras: 2691Tempo de Leitura: 14 Minutos
Episódio 17 de 23 na série A Era da Inteligência

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Depois de dizer que IA e robótica poderiam tornar o trabalho opcional, afirmou que o dinheiro acabaria deixando de ser relevante em algum ponto do futuro.

A frase parece radical.

Mas ela mistura três coisas que precisam ser separadas:

  • o custo de produzir um bem;
  • a escassez desse bem;
  • a necessidade de usar dinheiro para decidir quem recebe o quê.

Se IA e robôs reduzirem o custo de produzir software, comida, transporte, objetos, energia e serviços a valores muito baixos, a vida pode exigir menos renda para atingir o mesmo padrão material.

Isso faria o dinheiro parecer menos importante.

Mas existe uma diferença enorme entre:

muita coisa ficar barata

e:

não existir mais necessidade de coordenar recursos escassos.

A tese deste capítulo é:

o dinheiro pode perder peso em partes da vida se a tecnologia destruir escassez suficiente. Mas enquanto pessoas disputarem recursos limitados, localizações, energia, tempo, ativos e serviços que não podem ser replicados à vontade, algum mecanismo de preço, prioridade ou alocação continuará necessário.

O dinheiro pode encolher como problema cotidiano.

Desaparecer é outra história.

Dinheiro não é a mesma coisa que riqueza

Uma economia pode ter mais dinheiro sem ficar mais rica.

E pode ficar muito mais rica sem multiplicar na mesma proporção a quantidade de dinheiro.

Riqueza real é capacidade de produzir e acessar coisas úteis:

  • comida;
  • energia;
  • moradia;
  • transporte;
  • saúde;
  • conhecimento;
  • software;
  • máquinas;
  • tempo poupado;
  • infraestrutura.

Dinheiro é uma camada de coordenação sobre essa riqueza.

Ele permite comparar valores, quitar obrigações e transferir poder de compra entre pessoas e ao longo do tempo.

O Banco de Compensações Internacionais, no relatório econômico anual de 2026, descreve dinheiro como uma espécie de dispositivo de coordenação da economia. A formulação moderna preserva duas funções fundamentais: uma unidade comum de conta e um meio confiável de liquidação.

Essa distinção é central.

Se a tecnologia multiplica a riqueza real, não significa automaticamente que a camada monetária deixa de ser necessária.

Ela deixa de ser importante apenas onde o problema econômico que o dinheiro resolve também fica menor.

Onde a escassez desaparece, o preço pode se aproximar de zero

A internet já nos deu uma prévia.

O custo marginal de copiar um arquivo digital é praticamente zero.

Por isso, bilhões de pessoas acessam hoje:

  • mapas;
  • enciclopédias;
  • mensagens;
  • vídeos;
  • software;
  • comunicação internacional;

por preços que seriam impensáveis em uma economia analógica.

IA está ampliando esse mecanismo.

O AI Index 2026, de Stanford, estima que o excedente do consumidor gerado por ferramentas de IA generativa nos Estados Unidos chegou a cerca de US$ 172 bilhões por ano no início de 2026.

Grande parte dessas ferramentas continua gratuita ou quase gratuita.

Esse valor é interessante porque mostra riqueza que aparece sem necessariamente passar por um salário maior.

Uma pessoa consegue produzir uma apresentação, revisar código, resumir documentos ou criar imagens gastando muito menos do que gastaria antes.

O preço monetário de uma capacidade caiu.

A utilidade recebida aumentou.

Nesse pequeno pedaço da economia, dinheiro realmente perdeu importância relativa.

O próximo passo é levar o mesmo mecanismo ao mundo físico

Software é fácil de replicar.

Átomos não são.

Robótica tenta levar a lógica da automação digital para:

  • fábricas;
  • depósitos;
  • transporte;
  • agricultura;
  • construção;
  • serviços físicos.

O AI Index 2026 mostra avanço real em ambientes controlados, mas também deixa claro o tamanho da lacuna.

Robôs ainda falham na maior parte das tarefas domésticas reais.

Em ambientes estruturados, o desempenho pode ser alto.

Em casas, oficinas, ruas e situações imprevisíveis, ainda existe enorme distância entre demonstração e autonomia robusta.

Isso importa porque a previsão de dinheiro irrelevante exige mais do que chatbots excelentes.

Exige automação física em escala.

A abundância digital já está esbarrando em infraestrutura escassa

A Agência Internacional de Energia oferece talvez o melhor exemplo atual dessa tensão.

A energia usada por uma tarefa simples de IA caiu drasticamente nos últimos anos.

Em alguns casos, pelo menos uma ordem de grandeza por ano.

Mesmo assim, a demanda total dos data centers cresceu.

Em 2025, o consumo elétrico global de data centers subiu cerca de 17%.

Nos centros focados em IA, o crescimento foi de aproximadamente 50%.

A razão é simples:

custo por tarefa cai
+
uso cresce muito mais rápido
=
demanda total pode subir

Esse padrão é importante para a tese do dinheiro.

Uma tecnologia pode tornar um serviço individual muito barato e, ao mesmo tempo, aumentar o valor econômico dos gargalos necessários para produzi-lo em escala.

Neste caso:

  • eletricidade;
  • conexão à rede;
  • transformadores;
  • chips;
  • memória;
  • data centers;
  • capital.

Quanto mais barato fica gerar inteligência, mais esses insumos físicos podem importar.

Foi justamente essa migração da escassez que exploramos no capítulo “Se a IA tornar quase tudo barato, o que continuará caro?”.

Moradia mostra por que dinheiro não some quando uma parte da economia fica abundante

Imagine que IA reduza o custo de:

  • educação digital;
  • software;
  • entretenimento;
  • consultoria básica;
  • programação;
  • serviços administrativos;

em 90%.

Isso melhora muito o padrão de vida.

Agora tente replicar um apartamento no centro de uma cidade desejada com a mesma facilidade.

Não funciona.

A OCDE publicou em 2026 uma análise sobre a crise de acessibilidade habitacional e apontou um desequilíbrio persistente entre oferta e demanda.

Entre os fatores estão:

  • custos de construção;
  • falta de trabalhadores;
  • juros;
  • regras de uso do solo;
  • baixa oferta pública;
  • escassez de terrenos em algumas áreas.

Moradia é um bom exemplo porque combina várias formas de escassez.

Um prédio pode ser automatizado.

A arquitetura pode ser gerada por IA.

Robôs podem acelerar a construção.

Mas uma localização continua sendo única.

Se dez mil famílias quiserem morar perto do mesmo centro urbano e houver cinco mil unidades, algum mecanismo terá de decidir quem ocupa o espaço.

Pode ser preço.

Pode ser fila.

Pode ser sorteio.

Pode ser prioridade política.

Pode ser herança.

Pode ser relacionamento.

Eliminar dinheiro não elimina a necessidade de alocação.

Esse é o ponto central: se dinheiro sai, alguma outra regra entra

Dinheiro é criticado porque permite que poder de compra influencie acesso.

Mas ele também resolve um problema operacional difícil:

como coordenar milhões de decisões entre pessoas que querem coisas diferentes e recursos que não são infinitos?

Se tudo fosse realmente abundante, esse problema diminuiria.

Mas enquanto existir escassez, retirar o preço não torna o recurso infinito.

Apenas muda a regra.

Considere um restaurante com dez mesas disputadas por cem pessoas.

Sem preço, as mesas ainda são dez.

Você pode alocar por:

  • ordem de chegada;
  • reserva;
  • sorteio;
  • reputação;
  • prioridade;
  • relacionamento;
  • decisão administrativa.

O dinheiro não é a única forma possível de racionamento.

É apenas uma delas.

Por isso, uma sociedade “sem dinheiro” não é automaticamente uma sociedade “sem escassez”.

O dinheiro pode perder importância sem desaparecer

Essa talvez seja a versão mais plausível da hipótese.

Imagine uma economia em que a maioria das necessidades essenciais custe muito pouco em relação à renda disponível.

Energia é barata.

Comida é barata.

Transporte é automatizado.

Software é quase gratuito.

Educação digital é abundante.

Muitos serviços são fornecidos por IA.

Nesse mundo, uma pessoa pode viver bem gastando uma parcela pequena de sua renda.

O dinheiro ainda existe.

Mas deixa de dominar decisões diárias.

Isso já acontece em pequena escala com alguns bens digitais.

Ninguém organiza a vida financeira em torno de quantas pesquisas fará em um mecanismo de busca esta semana.

O custo marginal é baixo demais para importar.

A verdadeira transformação seria expandir essa lógica para uma parte muito maior da cesta de consumo.

Mas “barato” não significa necessariamente deflação geral

Existe outro erro comum.

Se IA aumenta produtividade, parece intuitivo concluir que todos os preços cairão.

A macroeconomia é mais complicada.

Um estudo do FMI sobre investimento em capital de tecnologia da informação — incluindo infraestrutura de IA — mostra que a própria onda de investimento pode agir como choque de demanda.

Empresas compram:

  • servidores;
  • chips;
  • imóveis;
  • energia;
  • equipamentos;
  • serviços especializados.

Isso aumenta capacidade futura, mas pode elevar demanda e preços no curto e médio prazo.

Nos cenários modelados pelo FMI, uma expansão forte do investimento em ICT pode aumentar simultaneamente produção e inflação, dependendo de como tecnologia e trabalho interagem.

Portanto:

mais produtividade
≠
todos os preços caem imediatamente

Uma revolução de oferta pode exigir antes uma enorme fase de investimento.

Dinheiro perde importância primeiro onde o custo marginal colapsa

Podemos organizar a economia em três grupos.

1. Bens quase infinitamente replicáveis

Exemplos:

  • software;
  • conteúdo digital;
  • conhecimento codificado;
  • certas análises;
  • algumas tarefas cognitivas.

Aqui IA pode empurrar o preço para muito perto do custo de infraestrutura.

Dinheiro tende a importar menos por unidade consumida.

2. Bens que podem ficar muito mais baratos, mas continuam físicos

Exemplos:

  • transporte;
  • manufatura;
  • comida;
  • construção;
  • manutenção;
  • logística.

Robótica pode reduzir custos fortemente.

Mas materiais, energia, espaço e equipamentos continuam existindo.

O dinheiro pode perder peso, mas dificilmente some completamente.

3. Bens estruturalmente escassos

Exemplos:

  • terra em localizações desejadas;
  • imóveis únicos;
  • experiências exclusivas;
  • tempo de pessoas específicas;
  • atenção;
  • posições de prestígio;
  • obras originais;
  • acesso a ambientes limitados.

Aqui a tecnologia pode mudar o valor.

Não elimina a rivalidade.

Enquanto duas pessoas quiserem a mesma coisa que não pode pertencer às duas ao mesmo tempo, haverá necessidade de alocação.

E existe um quarto tipo de escassez: o próprio tempo humano

Mesmo numa economia automatizada, cada pessoa continua tendo 24 horas por dia.

Se ninguém precisar trabalhar para sobreviver, talvez o recurso mais disputado deixe de ser dinheiro e passe a ser:

  • atenção;
  • acesso;
  • reputação;
  • influência;
  • relacionamento;
  • experiência.

Isso pode tornar a sociedade menos monetária.

Não necessariamente menos competitiva.

Status já funciona assim hoje.

Não existe quantidade de dinheiro capaz de criar infinitos primeiros lugares.

Abundância material pode deslocar a competição para bens posicionais.

O que significaria dinheiro “perder relevância” de forma mensurável?

Podemos sair da filosofia e criar indicadores.

1. Parcela da renda gasta em necessidades básicas

Se alimentação, energia, transporte, moradia e saúde consumirem uma fração cada vez menor da renda, dinheiro pesa menos sobre a sobrevivência.

2. Quantidade de serviços com custo marginal próximo de zero

Quanto mais capacidades úteis puderem ser usadas praticamente sem custo, maior a área da vida fora da lógica de preço por uso.

3. Jornada necessária para sustentar um padrão de vida

Se poucas horas de trabalho comprarem o mesmo padrão material que hoje exige uma semana inteira, dinheiro continua existindo, mas a dependência econômica diminui.

4. Oferta de bens físicos essenciais

Automação só reduz relevância monetária se oferta responder.

Construir mais, gerar mais energia e transportar mais é tão importante quanto baratear inteligência.

5. Importância da renda do trabalho

Se trabalho deixar de ser a principal fonte de acesso econômico, outro canal precisa crescer:

  • propriedade;
  • dividendos;
  • transferências;
  • serviços públicos;
  • direitos universais.

6. Persistência de preços em bens escassos

Se software cai de preço e moradia dispara, dinheiro não perdeu importância.

Ele apenas migrou de setor.

Há um cenário em que dinheiro quase desaparece da vida cotidiana

É possível imaginar um futuro em que:

  • energia é muito barata;
  • robôs extraem e reciclam materiais;
  • produção é altamente automatizada;
  • comida é abundante;
  • moradia básica existe em excesso;
  • transporte autônomo é barato;
  • saúde preventiva é amplamente automatizada;
  • educação personalizada custa quase zero;
  • renda ou propriedade produtiva é amplamente distribuída.

Nesse mundo, pagar por necessidades pode ser tão irrelevante quanto pagar por uma busca na internet hoje.

Dinheiro poderia continuar existindo como:

  • unidade de conta;
  • instrumento para bens raros;
  • forma de poupança;
  • mecanismo para investimentos;
  • ferramenta para bens de luxo.

Mas deixaria de organizar a sobrevivência.

Isso é muito diferente de “o dinheiro acabou”.

O que teria de acontecer para ele realmente deixar de ser necessário?

Uma economia completamente sem dinheiro exigiria algo muito mais extremo.

Quase todo bem relevante teria de ser abundante o bastante para não precisar de preços.

Ou então a sociedade teria de substituir preços por algum sistema não monetário de alocação.

Mesmo nesse cenário, continuariam existindo perguntas como:

  • quem recebe a casa com vista para o mar?
  • quem usa o avião em um horário disputado?
  • quem ocupa um terreno específico?
  • quem recebe um transplante quando órgãos ainda são limitados?
  • quem acessa uma pessoa altamente demandada?
  • quem decide onde energia escassa é usada durante uma crise?

Se essas coisas continuarem limitadas, alguma regra precisará existir.

Dinheiro é uma regra possível.

Não é a única.

O paradoxo é que IA pode tornar o dinheiro menos importante e os ativos mais importantes ao mesmo tempo

Se o custo de muitos serviços cair, consumidores precisam de menos renda para comprá-los.

Isso reduz a importância do dinheiro no consumo diário.

Mas os ativos que controlam os gargalos podem ficar ainda mais valiosos.

Por exemplo:

  • terra;
  • rede elétrica;
  • chips;
  • data centers;
  • infraestrutura;
  • propriedade intelectual;
  • empresas dominantes.

Esse cenário combina:

mais coisas baratas
+
menos dependência do salário para alguns consumos
+
mais valor concentrado em ativos escassos

Dinheiro pode parecer menos importante para consumir um serviço digital e mais importante para comprar um apartamento.

As duas coisas podem acontecer simultaneamente.

Musk pode estar certo em uma versão mais limitada da frase

A previsão de que “money will stop being relevant” parece exagerada se interpretada literalmente.

Mas existe uma leitura economicamente plausível.

Se IA e robótica aumentarem muito a produtividade, uma quantidade cada vez maior de utilidade pode ser obtida com menos dinheiro.

Nesse sentido, dinheiro perde relevância.

Ele deixa de ser a restrição principal para certas capacidades.

Já vemos isso no mundo digital.

O que ainda não vemos é a mesma abundância atravessando toda a economia física.

Robôs domésticos ainda são frágeis.

Data centers consomem infraestrutura escassa.

Moradia continua limitada por oferta.

Energia continua exigindo rede e investimento.

A própria expansão de IA exige capital.

Portanto, a evidência de 2026 sustenta a primeira metade da hipótese:

tecnologia pode derrubar radicalmente custos em algumas categorias.

Ainda não sustenta a segunda:

escassez econômica está desaparecendo a ponto de o dinheiro deixar de coordenar a vida material.

A pergunta mais útil não é “o dinheiro vai acabar?”

É:

em quais partes da vida o dinheiro pode deixar de ser uma restrição?

Essa pergunta permite medir progresso.

Se IA e robôs continuarem avançando, veremos algumas categorias atravessarem uma sequência parecida:

caro
→ barato
→ muito barato
→ custo marginal quase irrelevante

Quando isso acontece, o preço perde importância.

Mas os recursos que continuam escassos se tornam relativamente mais importantes.

Por isso, a próxima grande mudança econômica talvez não seja o fim do dinheiro.

Pode ser uma redistribuição do lugar onde o dinheiro importa.

Menos para inteligência replicável.

Menos para software.

Menos para certas formas de trabalho cognitivo.

Mais para energia.

Mais para localização.

Mais para infraestrutura.

Mais para ativos raros.

Mais para aquilo que a tecnologia ainda não consegue multiplicar.

O dinheiro pode deixar de organizar boa parte da vida.

Mas ele só deixa de ser relevante quando a escassez deixa de ser relevante também.

A Era da Inteligência

Universal High Income: abundância tecnológica acabaria com a pobreza? Se não precisarmos trabalhar, de onde virá propósito?
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