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Empreendedor rico, empresa pobre: a psicologia financeira nos negócios

Faturamento, lucro, caixa da empresa e patrimônio pessoal não são a mesma coisa. Entenda como separar os sistemas sem fragilizar nenhum dos dois.

Palavras: 1696Tempo de Leitura: 9 Minutos
Episódio 11 de 12 na série Dinheiro, Comportamento e Liberdade

Dinheiro, Comportamento e Liberdade

Profissional experiente analisa uma decisão financeira com documentos, calculadora e alternativas sobre a mesa antes de agir

Por que pessoas inteligentes tomam decisões financeiras ruins

Profissional brasileira em home office no Rio de Janeiro analisa documentos financeiros diante de notebook, com o monograma do autor integrado ao ambiente

Parecer rico e ser rico são coisas completamente diferentes

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Quanto é suficiente? O perigo de nunca saber quando parar

Pessoa em ambiente doméstico realista preserva um objeto cotidiano ainda útil enquanto organiza escolhas financeiras futuras sem sinais de ostentação

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Juros compostos: por que tempo é mais poderoso que genialidade

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Ganhar dinheiro e permanecer rico exigem habilidades diferentes

Profissional considera diferentes formas de continuar trabalhando com mais autonomia, tempo e liberdade de escolha

Liberdade financeira não significa parar de trabalhar

Pessoa em ambiente confortável revisa compromissos recorrentes e escolhas de estilo de vida sem sinais de crise ou ostentação

Seu padrão de vida pode estar roubando sua liberdade

Profissional controla algumas variáveis de uma decisão enquanto outros acontecimentos permanecem fora de seu alcance

Sorte, risco e a mentira do controle absoluto

Pessoa administra um imprevisto cotidiano com calma enquanto recursos e rotas alternativas mantêm sua estrutura financeira funcionando

Margem de segurança: organize sua vida para sobreviver quando as coisas dão errado

Empreendedor analisa a operação da empresa e seu planejamento pessoal como estruturas financeiras conectadas, porém separadas

Empreendedor rico, empresa pobre: a psicologia financeira nos negócios

Pessoa organiza trabalho, casa, planejamento e patrimônio como partes conectadas de um sistema financeiro voltado à vida

Seu sistema operacional financeiro: dinheiro a serviço da vida, e não o contrário

Empreendedor rico, empresa pobre: a psicologia financeira nos negócios

A empresa fatura R$ 500 mil por mês.

Parece muito.

Talvez seja muito.

Mas essa informação, sozinha, quase não responde nenhuma das perguntas que mais importam.

A empresa dá lucro?

Tem caixa?

Tem dívida?

Quanto precisa de capital de giro?

Quanto ainda vai receber?

Quanto vence antes desses recebimentos?

Quanto o sócio retira?

Quanto do patrimônio pessoal dele está dentro da empresa?

É perfeitamente possível existir:

empresa com faturamento alto e caixa apertado.

Também é possível existir:

sócio com padrão de vida alto e patrimônio pessoal frágil.

E as duas coisas podem acontecer ao mesmo tempo.

Faturamento é a métrica mais fácil de amar

Faturamento é simples.

Grande.

Fotogênico.

Fácil de falar.

“Minha empresa faturou R$ 10 milhões.”

Impressiona.

Mas faturamento mede volume de receita.

Não mede automaticamente:

  • lucro;
  • caixa;
  • patrimônio;
  • margem;
  • solvência;
  • riqueza pessoal do fundador.

É uma das métricas mais fáceis de transformar em identidade.

Volume não é resultado

Imagine duas empresas.

Empresa A

Fatura R$ 1 milhão por mês.

Tem margem pequena.

Precisa manter muito estoque.

Recebe clientes em 60 dias.

Paga fornecedores em 30.

Empresa B

Fatura R$ 300 mil.

Tem margem maior.

Recebe mais rápido.

Pouco estoque.

Menos custos fixos.

Qual é “melhor”?

Não sabemos.

Faturamento não resolve a pergunta.

Lucro também não é caixa

Essa distinção é ainda mais importante.

A empresa pode vender hoje.

Reconhecer receita.

E receber depois.

Pode ter:

  • cliente a prazo;
  • estoque;
  • impostos;
  • folha;
  • fornecedores;
  • empréstimos;
  • investimentos.

A CAIXA define fluxo de caixa como acompanhamento das entradas e saídas de dinheiro ao longo do tempo.

Fonte: CAIXA — Fluxo de caixa

Esse “ao longo do tempo” muda tudo.

A empresa pode ser lucrativa e ficar sem dinheiro

Imagine:

Você vendeu bem.

A margem parece boa.

Mas o cliente paga em 60 dias.

A folha vence em 10.

Fornecedor em 15.

Imposto em 20.

O lucro não paga boleto antes de virar caixa.

Esse descasamento é uma das razões pelas quais capital de giro importa.

Capital de giro é tempo operacional

A CAIXA define capital de giro como recursos necessários para manter a operação funcionando e cumprir custos enquanto o ciclo financeiro acontece.

Fonte: CAIXA — Capital de giro

Estoque consome capital.

Venda a prazo consome capital.

Crescimento pode consumir capital.

Essa última frase parece estranha.

Mas é real.

Crescer pode piorar o caixa

Imagine que sua empresa dobre as vendas.

Ótimo.

Agora precisa:

  • comprar mais;
  • contratar;
  • produzir;
  • financiar estoque;
  • suportar prazo de cliente.

O faturamento cresce.

O caixa pode apertar.

É por isso que:

crescimento não é sinônimo de liquidez.

Agora entra o fundador

A empresa cresce.

O fundador pensa:

“agora eu posso melhorar meu padrão.”

Faz sentido.

Foram anos de trabalho.

Risco.

Noites.

Pressão.

Não existe nada errado em usufruir.

O problema começa quando a retirada pessoal acontece sem relação clara com:

  • remuneração;
  • lucro;
  • capital de giro;
  • planejamento;
  • obrigação futura.

A empresa vira carteira do dono.

E o dono vira despesa imprevisível da empresa.

Misturar contas destrói informação

O Sebrae trata a separação entre finanças pessoais e empresariais como condição para enxergar desempenho real.

Fonte: Sebrae — Separação de contas

Se tudo passa pela mesma conta, você perde respostas.

Quanto custa a empresa?

Quanto custa sua vida?

Quanto a empresa gera?

Quanto você retira?

Qual é o lucro?

Qual é o caixa necessário?

Tudo vira uma massa.

“É tudo meu” é uma frase perigosa

Juridicamente e contabilmente, a resposta depende da estrutura.

Mas psicologicamente existe um problema simples.

O fundador olha para R$ 300 mil na conta da empresa.

E sente:

“eu tenho R$ 300 mil.”

Talvez não.

Parte pode estar comprometida com:

  • folha;
  • imposto;
  • fornecedor;
  • dívida;
  • estoque;
  • investimento;
  • capital de giro.

O saldo bancário não é necessariamente dinheiro livre.

Pró-labore é uma forma de separar papéis

A CAIXA define pró-labore como remuneração destinada aos sócios que trabalham na empresa.

Fonte: CAIXA — Pró-labore

Eu não vou entrar aqui em:

  • alíquota;
  • regra tributária;
  • valor ideal.

Isso precisa considerar legislação e contador.

O conceito que importa é outro.

Você pode ser simultaneamente:

  • trabalhador da empresa;
  • proprietário da empresa.

São papéis econômicos diferentes.

O sócio trabalha — e o capital também tem dono

Quando o fundador recebe tudo de forma indiferenciada, fica difícil saber:

quanto remunera meu trabalho?

quanto é retorno da propriedade?

quanto precisa ficar na empresa?

Essa separação melhora decisões.

Não porque existe uma fórmula universal.

Mas porque perguntas diferentes exigem respostas diferentes.

O outro extremo também é perigoso

Existe fundador que retira demais.

Existe fundador que nunca retira.

Tudo volta para a empresa.

Sempre.

Durante anos.

O negócio cresce.

Mas o patrimônio pessoal continua:

  • concentrado;
  • ilíquido;
  • dependente da mesma empresa.

Isso pode ser totalmente racional.

Especialmente se:

  • a oportunidade é excelente;
  • o fundador entende risco;
  • o objetivo exige concentração.

Mas precisa ser escolha.

Empreendedores concentram patrimônio

Tobias Moskowitz e Annette Vissing-Jørgensen estudaram investimento empreendedor em empresas privadas nos Estados Unidos.

Fonte: The Returns to Entrepreneurial Investment

Uma característica importante dos dados era a alta concentração.

Empreendedores colocavam grande parte do patrimônio num único negócio privado.

Isso não surpreende.

Para criar empresa, você concentra:

  • capital;
  • trabalho;
  • conhecimento;
  • tempo;
  • reputação.

É quase o oposto de uma carteira passiva diversificada.

E por que alguém faria isso?

Dinheiro não é a única recompensa.

Empreender pode comprar:

  • autonomia;
  • controle;
  • identidade;
  • criação;
  • impacto;
  • upside;
  • propósito.

O estudo inclusive discute benefícios não pecuniários como possível parte da explicação.

Ou seja:

não podemos avaliar empreendedorismo apenas pela relação risco-retorno financeira.

A empresa pode enriquecer o fundador — e aumentar a incerteza

Dados do Survey of Consumer Finances nos Estados Unidos mostram que famílias empresárias tinham, em média, renda e patrimônio maiores que famílias sem negócio.

Ao mesmo tempo, pequenos empresários reportavam mais incerteza sobre renda.

Fonte: Federal Reserve — Changes in U.S. Family Finances

É uma combinação muito realista.

Empreendedorismo pode criar riqueza.

E criar volatilidade.

O risco está duplicado quando vida pessoal e empresa crescem juntas

Imagine:

A empresa cresce.

Você:

  • aumenta casa;
  • troca carro;
  • aumenta escola;
  • aumenta custos recorrentes.

Ao mesmo tempo:

  • patrimônio continua na empresa;
  • renda vem da empresa;
  • garantias pessoais protegem dívida da empresa.

Agora um choque empresarial atinge:

  1. renda;
  2. patrimônio;
  3. capacidade de manter padrão;
  4. talvez dívida pessoal.

Uma única fonte dirige quase tudo.

O lifestyle do fundador pode drenar capital de giro

Isso não precisa acontecer de forma extravagante.

Pequenas retiradas extras.

Cartão da empresa pagando despesa pessoal.

Compra misturada.

Adiantamento.

Transferência informal.

O problema não é moral.

É informacional.

Ninguém sabe exatamente quanto saiu.

E, se ninguém sabe, o caixa perde previsibilidade.

A empresa também pode explorar o fundador

O inverso existe.

O fundador:

  • não se paga;
  • usa dinheiro pessoal para cobrir empresa;
  • reinveste tudo;
  • adia reserva pessoal;
  • assume garantias.

Durante anos.

O negócio talvez esteja crescendo às custas de empobrecer o sócio.

Isso também precisa ser visível.

Quatro caixas para pensar

Não são contas bancárias obrigatórias.

Nem conceito contábil oficial.

É um framework.

Caixa 1 — Operação

Dinheiro que pertence à operação.

Serve para:

  • fornecedor;
  • folha;
  • imposto;
  • estrutura;
  • estoque;
  • contrato;
  • despesa.

Não é “sobra”.

Caixa 2 — Resiliência empresarial

Recursos para:

  • sazonalidade;
  • atraso de cliente;
  • choque;
  • manutenção;
  • oportunidade planejada.

É margem da empresa.

Caixa 3 — Remuneração do trabalho do sócio

Você trabalha.

Esse trabalho precisa ser reconhecido economicamente.

Pode envolver pró-labore/remuneração conforme a estrutura aplicável.

O valor deve fazer sentido para:

  • empresa;
  • atividade;
  • legislação;
  • planejamento.

Caixa 4 — Patrimônio pessoal

Aqui entra o que já cumpre função da sua vida.

  • reserva pessoal;
  • casa;
  • investimentos;
  • objetivos;
  • aposentadoria;
  • patrimônio fora da operação.

A empresa pode continuar sendo parte enorme desse patrimônio.

Mas agora você enxerga isso.

O objetivo não é separar tudo

Empresa e sócio nunca serão completamente independentes.

Especialmente em negócio pequeno.

Eles compartilham:

  • risco;
  • renda;
  • reputação;
  • capital.

A separação é suficiente quando você consegue responder:

o que pertence a qual problema?

Uma auditoria simples

Responda:

FATURAMENTO MÉDIO:
R$ ______

CAIXA DISPONÍVEL:
R$ ______

RECEBÍVEIS:
R$ ______

OBRIGAÇÕES DOS PRÓXIMOS 30 DIAS:
R$ ______

RETIRADA / REMUNERAÇÃO DO SÓCIO:
R$ ______

PATRIMÔNIO PESSOAL FORA DA EMPRESA:
R$ ______

Agora pergunte:

se a empresa parar de distribuir por seis meses, minha vida pessoal funciona?

E:

se eu precisar retirar mais por seis meses, a empresa funciona?

Essas duas respostas mostram dependência cruzada.

Faturamento pode ser vaidade. Caixa pode ser ilusão. Lucro precisa de contexto.

Não existe uma métrica única.

Uma empresa saudável precisa de:

  • resultado;
  • fluxo;
  • capital;
  • clientes;
  • operação;
  • risco.

Um fundador saudável precisa de:

  • renda;
  • patrimônio;
  • liquidez;
  • objetivos;
  • margem.

Misturar os dois não os fortalece.

Só deixa mais difícil perceber quem está financiando quem.

Pergunta para você

Se sua empresa desaparecesse amanhã, quanto do seu patrimônio pessoal desapareceria junto?

E sua renda?

E suas garantias?

E seu padrão de vida?

Agora inverta.

Se você parasse de trabalhar na empresa amanhã, quanto da empresa desapareceria?

Essas respostas mostram concentração.

Não necessariamente erro.

Concentração.

Empresa rica e dono pobre é problema. Dono rico e empresa pobre também.

O objetivo não é escolher quem fica com o caixa.

É construir dois sistemas que não precisem destruir um ao outro para funcionar.

A empresa deve conseguir financiar sua operação.

O sócio deve conseguir construir sua vida.

Quando isso acontece, o negócio deixa de ser apenas fonte de renda.

Vira um ativo.

E o fundador deixa de ser apenas operador.

Vira proprietário consciente de um sistema econômico.


Fontes consultadas

Dinheiro, Comportamento e Liberdade

Margem de segurança: organize sua vida para sobreviver quando as coisas dão errado Seu sistema operacional financeiro: dinheiro a serviço da vida, e não o contrário
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